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Um palácio de ouro no topo do mundo: metáfora da renúncia
Rosana Biondillo
No outono de 1861, eu estava em Danapur como contador do Departamento de Engenharia Militar do Governo", diz Lahiri Mahasaya.
Foi quando seu chefe o chamou e o notificou do recebimento de um telegrama, que pedia sua transferência imediata para um posto do exército localizado em uma aldeia no sopé dos Himalaias. Lahiri deixa, então, sua mulher e filhos e parte para as sagradas montanhas. Chega ao seu destino, acompanhado de apenas um assistente, trinta dias depois.
Sem nada de complicado ou demorado para fazer no escritório do posto, Mahasaya passeia pelos arredores das montanhas geladas, sempre com a nítida sensação da "presença" dos grandes homens sagrados que, dizia-se, habitavam aquele local. Como se já tivesse estado ali antes, ouve chamar seu nome e sente-se cada vez mais atraído em direção a uma clareira, que culminava numa seqüência de cavernas. Nesse cenário, vê um homem jovem, em pé, sorrindo para ele e lhe estendendo a mão, que diz:
- "Lahiri, você veio!".
E completa:
- "O escritório foi trazido para você e não você para o escritório."
Era o imortal Yogi Babaji, seu Mestre através das existências, que o havia levado até lá, até Ele.
Nesse ponto, o conto assume uma beleza sublime, descrevendo o amor incondicional do Mestre por seu discípulo. Babaji toca a testa de Mahasaya e este, como que acordando de um sonho, prostra-se aos Seus pés e o reconhece como seu adorado Mestre. Babaji fala, então, com voz celestial, de como Lahiri se perdeu Dele e "desapareceu nas tumultuosas ondas da vida após a morte". Fala de como o apego que gerou seu karma o trouxe de volta para poder realizar seus desejos materiais.
- "Por mais de três décadas espero que você retorne para mim", diz o sagrado Yogi.
E completa:
- "Embora seus olhos tenham se perdido de mim, meus olhos nunca se perderam de você. Eu o segui através do luminescente oceano astral onde os anjos gloriosos velejam."
E Mahasaya, olhando ternamente para seu Guru na vida e na morte, murmura:
- "Onde já se ouviu falar de um amor assim, imortal?"
Depois desse encontro (que por mais que queira, não me atrevo a adjetivar), Babaji dá a Mahasaya um pouco de óleo para beber e lhe pede que entre nas águas geladas do Rio Gogash para purificar-se. Ele obedece e fica maravilhado com o "calor cósmico" que envolve seu corpo. Depois de algum tempo, por volta da meia-noite, seu solitário fluxo de purificação é interrompido por um homem, que o ajuda a sair do rio e lhe traz roupas quentes, convidando-o a seguí-lo para encontrar-se com seu adorado Guru.
No caminho, Lahiri avista soberanos raios de luz dourada intensamente brilhantes, que pensa ser o Sol.
- "Não, não é o Sol, meu amigo" , diz seu acompanhante.
Na verdade, era um palácio totalmente feito de ouro, inscrustrado com as mais preciosas pedras, no mais suntuoso e magnânimo estilo.
- "Babaji materializou este palácio de ouro especialmente para você, pois você desejou desfrutar das belezas e delícias de um palácio. Nosso Mestre está agora satisfazendo seu desejo para libertá-lo dos desígnios de seu karma."
E acrescentou:
- "Este magnífico palácio será o cenário de sua iniciação no Yoga."
O conto transcorre de maneira reveladora e profunda, e eu não pretendo aqui terminar de recontá-lo. Mas, nesse ponto, você deve estar se perguntando:
Por quê um palácio de ouro e não uma simples caverna, como cenário para uma cerimônia de iniciação no Yoga?
Por quê a suntuosidade e não a simplicidade?
Por quê a riqueza e não a pobreza?
Primeiramente, porque Yoga é um estado interno, interior. O cenário externo é, portanto, contextual.
Mas a resposta se encontra em uma palavra:
D E S E J O
Lahiri Mahasaya, assim como você e eu, desejou. Quis possuir um palácio de ouro e, portanto, gerou a semente para uma ação concreta futura.
Foi um desejo forte e autêntico, que gerou apego à sua realização e se ergueu como uma espécie de impedimento, um obstáculo no caminho de sua Iluminação.
Em outras palavras:
Ou renunciamos de forma completa, autêntica, integral e consciente aos nossos mais profundos desejos, ou teremos que, primeiro, realizá-los para que possamos, legitimamente, vir a renunciá-los.
O caminho da realização sempre passa pelo caminho da renúncia, do desapego e do desprendimento.
Boas reflexões a todos!!!
Nota: A imagem é do Palácio de Mysore, na Índia. A história, que recontei aqui, se encontra no livro Autobiografia de um Yogi, de Paramahansa Yogananda.
Rosana Biondillo é professora-fundadora do SYS - Shantih Yoga Studio, em Guarulhos, SP, onde ministra aulas e cursos. Escreve regularmente no seu blog, o Yoguices: www.yogablog.zip.net
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