Para uma sensação de paz que pode permear toda a vida, tente praticar técnicas de atenção plena sobre o mat
28/10/2009
b>Por Nora Isaacs Tradução: Madu Cabral
Você está em virabhadrasana I (postura do guerreiro I). Empurra ativamente seu pé de trás e permite que seu cóccix desça distanciando-se da lombar enquanto os braços se estendem em direção ao teto. Conforme mantém a postura, começa a perceber sua coxa da frente queimando, seus ombros tensionados e sua respiração difícil. Ainda mantém. Logo começa a se agitar e começa a antecipar a alegria que sentirá quando a postura acabar. Sua respiração se torna curta enquanto espera pela instrução do professor de sair da postura. Mas ele não diz nada. Você o chama de sádico. Ainda mantém. Você resolve que nunca mais vai voltar ao Yoga. Quando sua perna começa a tremer, você mentalmente sai. Frustrado, deixa os braços caírem e olha em volta da sala.
Agora imagine isso: você está em virabhadrasana I, percebendo as mesmas sensações, tendo os mesmos pensamentos e sentimentos — bravo, entediado, impaciente, tenso. Mas, em vez de reagir, simplesmente observa seus pensamentos. Lembra-se de que essa postura, assim como tudo na vida, acabará eventualmente. Você se lembra de não ficar preso à própria história. E, antes de se irritar com a coxa que queima, você aprecia a doçura do momento. Você pode até se sentir banhado pela gratidão de poder fazer uma prática de Hatha Yoga. Então leva sua atenção de volta à respiração e observa as sensações e pensamentos até que o professor o guia para fora da postura.
Você acaba de experimentar os benefícios da atenção plena — de trazer sua atenção para o momento presente, de perceber e aceitar o que está acontecendo nesse exato momento sem julgamentos ou reações. E, sem dúvida, é bem melhor do que o primeiro cenário (que você pode reconhecer como algo que já experimentou). Atenção plena é algo que a meditação budista cultiva. E é algo ensinado em todos os estilos de Hatha Yoga, normalmente por meio da ênfase na atenção da respiração.
Recentemente, um grupo de professores americanos que, independentemente, descobriram os benefícios de misturar técnicas de atenção plena com asanas, começou a oferecer algo que chamamos de mindful Yoga (Yoga consciente). Professores de diversas linhas estão aplicando os ensinamentos da atenção plena budista na prática de asanas. Em aulas por todo o País, eles oferecem essas ferramentas como uma forma de aumentar sua presença e atenção, não apenas quando você está sobre o mat, mas também quando sai dele, o que pode, no fim das contas, tornar sua vida — com todos seus conflitos, confrontos e distrações — mais fácil de ser navegada. “Minha experiência é de que quando realmente cultivamos a atenção plena na prática de Hatha Yoga e na meditação sentada, quase naturalmente ela começa a deslizar para nossas outras atividades”, diz Boccio, autor de um livro sobre o assunto.
Conexão indiana
Você não tem de ser budista ou saber muito sobre o budismo para aprender as práticas de atenção plena, mas ajuda saber que Yoga e Budismo têm muito em comum. Ambas são práticas espirituais antigas que se originaram no subcontinente indiano e têm como objetivo libertá-lo da noção pequena e egoica do Ser e experimentar a unidade com o universo. O caminho óctuplo de Buda e o caminho de oito membros do sábio yogi Patañjali são bem similares: ambos começam com práticas éticas e conduzem e incluem treinamento de concentração e atenção. “Vejo Buda e Patañjali como irmãos, usando linguagens diferentes, mas falando sobre e apontando para a mesma coisa”, diz Stephen Cope, diretor do Kripalu Institute e autor do livro The Wisdom of Yoga (sem tradução para o português).
Porém, uma diferença é que o caminho yóguico enfatiza o desenvolvimento da concentração em um objeto altamente refinado, como a respiração, para produzir estados profundos de interiorização. O caminho budista, por outro lado, foca na atenção plena em todos os eventos, conforme eles se desdobram no fluxo da consciência, para que possa experimentar o que está acontecendo sem se agarrar ou tentar se livrar. E aquela perna tremendo na postura de pé? Ela não toma conta da sua experiência por completo e você não precisa mudá-la. Com a consciência plena, ela se torna apenas uma pequena sensação em toda a trama do momento. Aplicada mais amplamente, quando todo o seu corpo está tremendo por estar nervoso para uma entrevista de trabalho, você pode permitir que aquela sensação fique ali. Ela não precisa engolir toda a sua autoconfiança ou acabar com toda a experiência.
Uma abordagem sistemática
Atenção plena sempre foi um aspecto essencial de qualquer prática física yóguica séria. Mas os professores de mindful Yoga de hoje dizem que o mapa budista para a atenção plena os beneficiou ainda mais. Isso sem dizer que esses professores sentiram falta de algo no Yoga. Para a maioria, a integração aconteceu naturalmente. Conforme seu interesse — e entendimento — pelo budismo se aprofundava com o tempo, eles perceberam que a atenção plena altamente desenvolvida poderia complementar suas práticas de asanas. “Venho praticando asanas com consciência, prestando atenção especialmente à respiração e ao alinhamento”, lembra Boccio. “Mas quando escutei os ensinamentos de Buda sobre as quatro fundações da atenção plena, a perspectiva do asana se apresentou à minha frente.” Em vez de apenas praticar com consciência de uma forma geral, Boccio seguiu os ensinamentos de Buda, que fornecem instruções detalhadas que podem ser aplicadas a qualquer postura. Por praticar a atenção plena sistematicamente, ele pôde identificar em si mesmo atitudes como torcer para sair de uma postura, evitar alguma outra ou simplesmente deixar seus pensamentos o levarem para fora dali. E uma vez que os identificava, conseguia fazer mudanças positivas.
Boccio explica a diferença entre praticar Yoga com consciência e seguir as técnicas de atenção plena budistas. “Enquanto outras formas de Yoga podem ensinar os alunos a praticarem asanas com atenção plena, eu ensino e pratico atenção plena em forma de asanas.”
Cyndi Lee, professora de Yoga em Nova York, diz que, embora sempre tenha amado as posturas físicas, somente quando aplicou as práticas de atenção plena budistas viu os frutos de sua prática irem além do nível físico. “A prática budista de atenção plena tem uma técnica totalmente desenvolvida que pode ser modificada para aplicar ao asana”, diz ela. “Foi então que vi minha prática aparecer no meu dia-a-dia conforme aumentava a paciência, a curiosidade, a gentileza, o potencial para não se preocupar muito com a agenda, o entendimento dos desejos e o reconhecimento da bondade básica em mim e nos outros.”
Convite para se aprofundar
A beleza do treinamento da atenção plena é que transcende aos estilos de Yoga: uma vez aprendida a base da prática, você pode aplicá-la em qualquer aula que fizer. Os professores de Yoga hoje misturaram uma rede de Yoga com consciência baseada em seus treinamentos, interesses e conhecimento únicos. A aula de Sarah Powers muitas vezes começa com Yin Yoga — que consiste basicamente em posturas sentadas mantidas por longas permanências — e caminha para o Vinyasa Flow. As longas permanências em Yin podem fazer brotar sensações físicas intensas, sem mencionar a vontade, muitas vezes persistente e irritante, de sair da postura. Paula acredita que essa é a hora perfeita de lembrar os alunos dos métodos de atenção plena e ela o faz compartilhando os ensinamentos de Buddha-dharma. “Quando somos chamados a ir mais fundo na dor, desconforto ou agitação, precisamos de suporte para integrar essa experiência. Receber os ensinamentos de atenção plena dá suporte ao processo. Na hora em que os alunos estão prontos para começar a parte mais ativa da prática, o palco está armado para a atenção consciente.”
Em sua aula de Kripalu Yoga, Cope encoraja os alunos a desenvolver “consciência de observador”, a qualidade da mente que permite que fique quieto no centro do furacão de sensações. Com a prática, diz Cope, alunos podem desenvolver esse aspecto de consciência, a parte do Ser que está tanto em silêncio no meio do furacão quanto de fora, observando.
Cope diz que o sofrimento pode servir como um lembrete para retornar ao momento presente e observar a verdade do que está acontecendo no momento. Em aula, ele pede para os alunos identificarem a forma como estão causando sofrimento a si mesmos — como, por exemplo, se comparando ao vizinho na postura do triângulo ou ansioso para avançar em uma flexão para a frente — e então identificar isso como simples pensamentos ou padrões de comportamento. Esses pensamentos não são verdades, mas sim coisas em que nos condicionamos a acreditar com o tempo até que se tornem tão arraigados que é difícil discerni-los. “Você percebe o padrão, dá um nome e então começa a investigá-lo”, diz Cope.
Bocci ensina os quatro fundamentos budistas de atenção plena — do corpo, dos sentimentos, da mente e do dharma (verdade) — sobre o mat. Depois de instruir seus alunos sobre uma postura, ele os incentiva a cultivar a atenção fazendo perguntas: você está levando atenção à sua respiração? De onde surgem as sensações? Você está começando a criar uma formação mental se perguntando quando essa postura vai acabar? “Quando as pessoas começam a investigar, percebem que não precisam acreditar em todos os pensamentos que aparecem em suas cabeças”, diz ele.
Consciência em plena ação
Aulas de Yoga são ótimos laboratórios para se tornar mais consciente porque estão cheias de condições que estão fora de seu controle. Ou qualquer outro dia em que o barulho do trânsito está desconfortavelmente alto, você pode se sentir entediado ou preocupado, o suor do seu vizinho pode pingar em seu mat, seus isquiotibiais podem estar encurtados. Armado com as técnicas de concentração plena, você pode reenquadrar essas condições de forma a aproveitar mais sua aula de Yoga e se sentir menos reativo a coisas que normalmente acha irritantes ou dispersivas.
Para a professora de Yoga Laura Neal, as técnicas de atenção plena a tornaram consciente de sua tendência a forçar demais em sua prática física. “Agora tenho menos tendência a ultrapassar meu limite — e também sou menos tentada a parar muito perto dele”, diz ela.
Michele Morrison, supervisora de contabilidade e também professora de Mindfulness Yoga, sente os efeitos de combinar a prática de atenção com sua prática física. “Comecei a ver coisas diferentes acontecendo: onde estava me agarrando às sensações agradáveis, o que estava me irritando, reconhecendo meus hábitos”, conta ela. “Tenho tendência a ser meio dura comigo mesma e percebi que posso ter esses sentimentos e ainda sim estar aberta às outras opções.”
Anne Cushman, professora que dá treinamentos desse estilo de Yoga, diz que a atenção plena pode dar vida a uma prática que esteja operando no piloto automático. “É uma forma de se abrir mais profundamente à sua prática de Yoga e estender esse sentimento ao resto de sua vida.” Cushman também diz que pode abrir portas para as pessoas que não conseguem entender a prática sentada dizendo: “Para algumas pessoas, a meditação sentada não é acessível no estado em que estão de prática, por temperamento ou dificuldade física. Essa simplesmente não é a porta de entrada para elas.”
A próxima onda
Se essa prática faz sentido para você, procure um professor que tenha estudado as duas tradições. “É bom ter alguém para responder às suas perguntas e dar suporte”, explica Boccio. Até agora não existe uma fonte fácil para achar tal pessoa, mas a busca deve se tornar cada vez mais simples. Nos Estados Unidos, em um centro chamado Spirit Rock, já há treinamentos que integram asanas, pranayamas (técnicas respiratórias), meditação de atenção plena e os ensinamentos de Patañjali.
“Os professores sênior de Spirit Rock perceberam que cada vez mais alunos de Yoga estavam vindo para retiros porque queriam aprender sobre meditação budista”, conta Cushman. “Vimos uma vontade entre os praticantes de Yoga de aprender a meditação vipassana.”
Praticantes dizem que integrar a atenção plena os ajudou a lidarem melhor com o estresse diário do trabalho, relacionamentos e a encontrar seu lugar no mundo. Cyndi Lee diz que a atenção plena funciona porque oferece uma abordagem realística de como lidar com os desafios da vida. “É um material bem aterrado, centrado e testado por muito tempo”, conta. “Não se trata de escapar, criar um estado de bem-aventurança e então, quando abre os olhos, você dá de cara com a realidade. Qualquer que seja sua situação, você pode trabalhar nela. A técnica lhe dá um caminho para mudar seu cenário para longe do apego e da aversão, a pensar que, fundamentalmente, não existe um problema e tudo pode ser resolvido. E isso é muito libertador.”